Por que somos mais generosos quando temos menos?

Por que somos mais generosos quando temos menos? –Thamires Pinheiro  =>Correio Braziliense

Existe uma ideia comum de que a generosidade nasce da abundância. De que é mais fácil ajudar quando se tem conforto, tempo, dinheiro e estabilidade. Mas uma pesquisa recente mostra que a lógica humana pode ser justamente o oposto.

Um estudo publicado na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores das universidades de Birmingham, Oxford e East Anglia, aponta que pessoas inseridas em contextos de escassez tendem a ser mais propensas a ajudar os outros do que aquelas que vivem em ambientes com mais oportunidades.

Coordenada por Todd A. Vogel e Patricia L. Lockwood, a pesquisa envolveu 510 participantes e analisou como o ambiente molda decisões de ajuda. Nos experimentos, os voluntários assistiam a documentários e, ao longo da exibição, surgiam oportunidades de obter recompensas para si ou para um estranho anônimo. Para isso, precisavam interromper o que estavam fazendo e realizar tarefas fisicamente cansativas.

O resultado demonstrou que, em ambientes com menos oportunidades, as pessoas se mostraram mais dispostas a interromper o próprio conforto para ajudar alguém que não conheciam.

Segundo os pesquisadores, isso ocorre porque o valor das escolhas muda conforme o contexto. Em cenários de abundância, ajudar alguém significa abrir mão de algo potencialmente vantajoso para si. Já em contextos de escassez, esse “custo de oportunidade” diminui. Quando há pouco a ganhar individualmente, o cérebro passa a perceber menos perda em parar para ajudar o outro.

A pesquisa se apoia em princípios da ecologia comportamental, área que estuda como seres vivos tomam decisões diante de recursos limitados. Aplicada ao comportamento humano, essa lógica revela que a generosidade não é apenas moral ou emocional, mas também adaptativa.

O estudo também mostra que esse comportamento está mais ligado à empatia e a valores coletivos do que a estados emocionais como ansiedade ou sofrimento psíquico. A generosidade não nasce da dor, mas da percepção de interdependência. Não é o sofrimento que gera solidariedade, é a consciência de que ninguém se sustenta sozinho.

O que Todd A. Vogel e equipe demonstraram é que o contexto dita o nosso caráter. Em ambientes de fartura, tendemos a ser mais seletivos e, de certa forma, mais egoístas, protegendo nosso tempo e nossas chances de ganho. Mas quando as oportunidades se apagam, a nossa gentileza se acende com mais força. A escassez nos força a ver que, quando o ambiente é ‘pobre’, a riqueza real está na nossa capacidade de agir em benefício do outro com a mesma urgência que agiríamos por nós mesmos.

https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2026/02/7351938-por-que-somos-mais-generosos-quando-temos-menos.html

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