Caindo na real – por que pode ser fácil nos enganar (e como nos protegermos) –Daniel de Barros =>Revista GALILEU
# Uma vez que assumimos esse pressuposto, “a realidade é real”, passamos a tentar explicar e racionalizar os acontecimentos de forma a encaixá-los nessa explicação racional e plausível.
Apesar de sabermos que não existe uma diferença rígida de papéis entre os dois lados do cérebro, fato é que a anosognosia [falta de consciência ou percepção, ou negação] é extremamente mais comum quando uma lesão se dá no lado direito. O neurologista V. S. Ramachandran , credita ao hemisfério direito o papel de “detector de anomalias” e propõe que o lado esquerdo do cérebro trabalha o tempo todo para dar coerência à nossa realidade, encaixando os estímulos que recebemos num fio contínuo de realidade, ignorando aquilo que ameaça a consistência de nosso mapa mental.
Isso explicaria em grande parte os vieses cognitivos, que nos levam a prestar mais atenção nas coisas que confirmam nossas crenças, por exemplo. Mas, quando anomalias muito grandes entram na consciência e nos obrigam a rever pressupostos, isso é trabalho do hemisfério direito, forçando reinterpretações da realidade. Lesionado, ele se torna incapaz de dar esse alerta aos pacientes, que não conseguem tomar consciência de suas deficiências, já que elas não se encaixam no modelo de auto-percepção que sempre tiveram.
Uma pesquisa publicada em 2026 mostrou a voluntários imagens muito conhecidas, como o logotipo do Facebook ou uma foto do Incrível Hulk, em ambientes bem e mal iluminados, tanto coloridas como em preto e branco. Quando havia luz suficiente, as pessoas não tinham dificuldade de detectar a presença ou não de cores, mas, sob luz fraca, a tendência era enxergar cores mesmo quando as imagens eram em preto e branco. Os cientistas concluem que, de fato, as expectativas e pressupostos interferem na própria maneira como enxergamos e interpretamos a realidade.
O seriado Jury Duty (disponível na Amazon Prime) leva essa experiência ao seu limite. Em suas duas temporadas, um incauto participante acredita que esteja fazendo parte de um documentário (na primeira temporada, sobre um júri; na segunda, sobre uma convenção de empresa), quando, na verdade, todos os outros participantes são atores desempenhando papéis. O roteiro vai progressivamente criando situações cada vez mais improváveis, até que a pegadinha é revelada ao final da temporada. Como eles não percebem o absurdo que os cerca, como não se dão conta do embuste? Ficamos nos perguntando. (Em entrevista posterior, os participantes dizem que é a pergunta que eles mais ouvem até hoje.)
O fato é que não é assim tão difícil ser enganado dessa forma. Pressupor que os eventos que nos circundam são reais, por mais improváveis que pareçam, é muito mais sensato do que acreditar que estamos vivendo em uma espécie de Show de Truman (1998). Uma vez que assumimos esse pressuposto, “a realidade é real”, passamos a tentar explicar e racionalizar os acontecimentos de forma a encaixá-los nessa explicação racional e plausível. Olhando em retrospecto, parece inacreditável que as pessoas não tenham se dado conta. Mas, no meio da situação, muitas vezes sem ter com quem debater suas dúvidas, sem questionamentos externos, é fácil não notar a pegadinha.
A lição não é necessariamente que deveríamos ser mais paranoicos ou desconfiar mais de tudo. Mas, se nos cercamos de um ambiente plural, diverso em opiniões e pontos de vista, mais oportunidades teremos de testes de realidade. E mais fácil fica o trabalho do cérebro em nos mostrar quando as coisas não são bem assim quanto parecem para a gente.
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