‘Falta de sexo’ atrasou a evolução da Terra por milhões de anos – Arthur Almeida => Revista GALILEU
A reprodução dos primeiros animais da Terra pode ter atrasado a evolução da vida por milhões de anos. Segundo um estudo liderado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, publicado na terça-feira (9) na revista Nature Ecology & Evolution, a predominância da reprodução assexuada limitou a competição entre indivíduos e desacelerou o aparecimento de novas espécies. Apenas quando o ambiente se tornou mais desafiador é que a reprodução sexuada ganhou espaço, desencadeando um salto na diversidade biológica.
Essa descoberta ajuda a explicar um dos grandes mistérios da paleontologia: por que os primeiros animais surgiram há cerca de 574 milhões de anos, mas passaram um longo período apresentando poucas mudanças evolutivas antes de uma fase de rápida diversificação.
Segundo a principal autora do estudo, a pesquisadora Emily Mitchell, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, as condições ambientais da época favoreciam esse modelo. “A vida era bastante agradável durante o período Ediacarano (período Ediacarano testemunhou o surgimento dos primeiros animais conhecidos), então a necessidade de sexo era relativamente limitada. Havia relativamente pouca competição, então não havia pressão real para mudar nada”, afirma, em comunicado.
Em condições normais, a competição entre indivíduos favorece os organismos mais adaptados e acelera a seleção natural. No entanto, a reprodução assexuada em larga escala diminuía essa pressão evolutiva. Os pesquisadores identificaram um fenômeno chamado heteromiopia, no qual a competição ocorre em escalas espaciais muito limitadas. Isso permite que organismos menos eficientes sobrevivam por mais tempo, reduzindo a velocidade das mudanças evolutivas.
Para testar suas hipóteses, os cientistas construíram um modelo computacional capaz de simular milhares de cenários diferentes sobre o funcionamento das comunidades animais primitivas. Uma rede neural — um sistema de IA inspirado no funcionamento do cérebro humano — foi utilizada para identificar quais simulações reproduziam com maior fidelidade os padrões observados nos fósseis.
Os pesquisadores concluíram que a transição gradual da reprodução assexuada para a sexuada coincidiu com uma fase conhecida como “segunda onda” ediacarana, marcada por um aumento expressivo da diversidade de formas de vida.
Com organismos capazes de se dispersar por áreas maiores e com maior variabilidade genética, a evolução ganhou velocidade. Esse processo se intensificaria ainda mais no período Cambriano, iniciado há cerca de 539 milhões de anos, quando surgiram animais móveis e aconteceu a famosa Explosão Cambriana, um dos episódios mais importantes da história da vida na Terra.
Para os autores, a descoberta mostra que a forma como os primeiros animais se reproduzia teve um papel decisivo no ritmo da evolução. Em vez de acelerar a inovação biológica, a clonagem em larga escala teria mantido os ecossistemas relativamente estáveis por milhões de anos. Somente quando as condições ambientais se tornaram mais difíceis a reprodução sexuada passou a oferecer vantagens suficientes para transformar a trajetória evolutiva dos animais e abrir caminho para a extraordinária biodiversidade observada hoje.
