Cérebro de pessoas surdas transforma o silêncio em visão = Publicação: Human Brain Mapping =>DIÁRIO DA SAÚDE
Um cérebro que se desenvolve privado de um dos sentidos reorganiza-se de forma surpreendente, revelando uma plasticidade cerebral em um nível desconhecido pela ciência até agora.
Ao estudar a atividade cerebral de jovens surdos de nascença e de jovens ouvintes durante uma tarefa visual, Zohar Tal e colegas da Universidade de Glasgow (Escócia) descobriram que o cérebro pode reorganizar os sentidos não só através de mais ativação neuronal, mas também através de mecanismos de desativação seletiva de outros neurônios.
A neuroplasticidade permite que o cérebro humano se reorganize ao longo da vida em respostas às condições de vida ou do ambiente. As situações de privação sensorial são ainda mais marcantes, com estudos sobre cegueira e surdez congênita já tendo revelado que áreas privadas de estimulação podem ser recrutadas para processar informação de outros sentidos, um fenômeno chamado plasticidade intermodal. Em modelos animais e em humanos, o córtex visual privado de visão pode passar a dar suporte a tarefas auditivas, táteis ou linguísticas, enquanto o córtex auditivo privado de som passa a responder a estímulos visuais.
No caso da surdez congênita, sabia-se que a visão pode recrutar áreas normalmente dedicadas à audição, ou seja, o córtex auditivo reorganizado responde a estímulos visuais, como movimento, ritmo ou localização no campo visual, e que essa reorganização está associada a vantagens comportamentais em tarefas visuais.
O que não se sabia era a forma como o córtex auditivo reorganizado representa as características espaciais visuais fundamentais, que não estão na “programação original” dessa região do cérebro.
Os pesquisadores analisaram o cérebro de jovens surdos de nascença e de jovens com audição normal enquanto os voluntários observavam padrões visuais simples. Utilizando estímulos clássicos, que percorrem sistematicamente diferentes zonas do campo visual, os pesquisadores analisaram, através de ressonância magnética funcional, como várias regiões do cérebro respondiam a essa estimulação.
Nos participantes ouvintes, os resultados seguiram o padrão esperado: O córtex visual ativa-se de acordo com a localização dos estímulos, enquanto o córtex auditivo mantém-se sem modulação relevante. Nos participantes surdos, porém, surgiu um fenômeno inesperado: Em vez de aumentar a atividade, o córtex auditivo apresenta uma desativação sistemática do sinal cerebral quando surgem estímulos visuais.
Em outras palavras, geram-se representações visuais organizadas em regiões auditivas que não estão recebendo a entrada sonora. E as desativações no córtex auditivo seguem um padrão organizado: Elas respondem sobretudo ao que aparece no lado oposto do campo visual, concentram-se mais na zona central da visão e abrangem áreas grandes do espaço, o que indica que esta região está realmente representando onde os estímulos visuais se encontram.
“Este estudo abre uma nova perspectiva sobre a plasticidade cerebral, mostrando que o cérebro não se limita a substituir um sentido por outro através de maior ativação, também pode fazê-lo através de desativação seletiva, talvez como forma de filtrar informação irrelevante ou otimizar a atenção visual,” disse o professor Alessio Fracasso.
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