O ENCONTRO NOTURNO DE NICODEMOS
Uma reflexão sobre os encontros que temos no escuro e a coragem que precisamos à luz do dia.
“Como pode um homem nascer, sendo já velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e nascer?”
Essa pergunta foi feita por Nicodemos, um respeitado líder religioso de seu tempo, que foi encontrar-se secretamente com Jesus à noite. Ele sentia que aquelas conversas tinham algo profundo, mas vivia dividido: à luz do dia, mantinha sua posição convencional; na escuridão, permitia-se perguntar. Sua história é, antes de tudo, sobre o dilema de quem enxerga uma verdade, mas hesita em viver de acordo com ela — e sobre o preço silencioso que se paga por essa hesitação.
Quantas vezes nós também conhecemos essa sensação? Algo dentro de nós sussurra uma nova compreensão, uma mudança sutil, mas seguimos fingindo que tudo está como antes. Nicodemos nos lembra que essa divisão não diminui a verdade que reconhecemos — mas pode nos diminuir a nós, deixando um sabor amargo de oportunidade perdida.
Acho que todo mundo carrega dentro de si um pouco desse jogo entre duas vozes. Uma, mais íntima, que sabe o que é autêntico; outra, mais social, que calcula, adapta, às vezes esconde. Não é sobre ser “falso” ou “verdadeiro” de maneira dramática, mas sobre aqueles momentos pequenos e cotidianos em que sentimos que algo mudou dentro de nós — e precisamos decidir se agimos de acordo ou se seguimos no piloto automático.
O fato é: sempre que percebemos uma nova realidade e insistimos nos velhos hábitos, estamos adiando um renascimento possível. Já me peguei inúmeras vezes nesse ponto crítico — sabendo que uma fase acabou, que uma certeza se desfez, mas tendo que reunir coragem para agir de acordo com essa mudança. É desconfortável. É mais fácil repetir.
Mas é justamente nesse desconforto que reside a oportunidade. Sempre que notamos que estamos vivendo divididos — entre o que sabemos e o que mostramos —, temos a chance de realinhar uma pecinha da nossa existência. Podemos escolher, nem que seja por um instante, dar crédito àquela voz interior.
Esses momentos de clareza, por mais breves que sejam, têm um poder curioso. Eles restauram algo fundamental: a sensação de que estamos vivos de verdade, e não apenas cumprindo um roteiro. Não é sobre transformações grandiosas, mas sobre a coragem de permitir que o novo, quando ele chegar, encontre espaço na nossa vida diária.
No fim, a história de Nicodemos talvez não seja sobre religião, mas sobre honestidade íntima. E sobre a pergunta que fica: quantas noites precisamos para que o que conversamos na escuridão finalmente veja a luz do nosso dia?
Insight by Daniel Luz





