Empatia: característica social também tem base biológica – Isabella Almeida =>Correio Braziliense
Pessoas e animais são capazes de perceber quando os outros estão tristes ou em sofrimento e tentar proporcionar conforto. A motivação para isso, contudo, e por que essa habilidade às vezes falha é algo ainda pouco compreendido. Agora, pesquisadores da Universidade da Califórnia (UCLA), nos Estados Unidos, descreveram melhor o fenômeno em um estudo publicado na revista Nature. O trabalho, desenvolvido com camundongos, revelou que os circuitos cerebrais conectam dois comportamentos sociais distintos: cuidar de filhotes e consolar parceiros. Essa é a primeira evidência neural direta para a antiga hipótese de que o impulso biológico de ajudar os outros pode ter se originado no mecanismo do cuidado parental.
A pesquisa estabeleceu que animais que são melhores pais também se sobressaem na tarefa de ajudantes. Os ratos que passavam mais tempo cuidando de filhotes se dedicaram com maior afinco na hora de confortar os companheiros adultos estressados. Essa relação foi específica e não refletiu a sociabilidade geral ou outras tendências comportamentais dos camundongos.
Ao monitorar a atividade neural, os pesquisadores descobriram que neurônios específicos na área pré-óptica medial (MPOA) — uma região do hipotálamo conhecida por seu papel na parentalidade — eram ativados quando os animais encontravam adultos estressados. Em seguida, notaram que o silenciamento dessas células durante as interações com os filhotes fazia com que os animais reduzissem o comportamento de ajuda em relação aos companheiros, demonstrando uma ligação causal direta entre os circuitos que sustentam a parentalidade e o comportamento pró-social.
Por fim, os cientistas identificaram uma via da área pré-óptica medial que se projeta para o sistema de recompensa dopaminérgico do cérebro e que controla bidirecionalmente ambos os comportamentos. Tanto o conforto quanto a parentalidade desencadearam a liberação de dopamina no núcleo accumbens, o “centro de recompensa” cerebral, sugerindo que ajudar os outros é intrinsecamente gratificante— e que esse bônus é mediado pelo mesmo circuito que incentiva o cuidado parental.
Ao Correio, Weizhe Hong, autor sênior do estudo e professor dos Departamentos de Neurobiologia e Química Biológica da Universidade, frisa que um dos aspectos mais surpreendentes é o que os resultados sugerem sobre a natureza do próprio comportamento de ajuda. “Às vezes, há uma tendência a pensar em atos pró-sociais como puramente altruístas — como se cuidar dos outros tivesse um custo pessoal. Mas os dados sugerem que esse comportamento é intrinsecamente recompensador para quem ajuda. Quando camundongos confortavam um companheiro estressado, a dopamina aumentava no centro de recompensa do cérebro, da mesma forma que acontece quando cuidam dos próprios filhotes. Isso se assemelha a algo bem documentado na psicologia humana — a chamada ‘sensação de bem-estar’ que as pessoas relatam após atos de bondade.
Para a equipe, as descobertas apoiam a ideia de que a evolução não construiu o comportamento pró-social do zero. Em vez disso, os sistemas neurais que evoluíram para o cuidado da prole podem ter fornecido uma estrutura para o surgimento de um apoio mais amplo entre adultos. A área pré-óptica medial, antes considerada principalmente um centro parental, emerge como uma área mais geral para a atenção com os outros.





