Música calma pode influenciar escolhas alimentares mais saudáveis, aponta estudo 

Música calma pode influenciar escolhas alimentares mais saudáveis, aponta estudo – Carina Gonçalves => Revista GALILEU
Escolher o que colocar no prato pode não depender apenas da fome ou das opções disponíveis no cardápio. Um novo estudo sugere que até mesmo a música ambiente pode influenciar esse processo. Segundo pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, na China, músicas de baixa excitação, mais lentas, suaves e relaxantes, podem favorecer escolhas alimentares mais saudáveis.
Os autores sugerem que os resultados podem ter aplicações práticas em restaurantes, hotéis, estabelecimentos de alimentação e até mesmo em plataformas de compras online. A escolha de músicas menos estimulantes poderia, segundo eles, ser utilizada como uma estratégia para tornar opções saudáveis mais atraentes ou coerentes com o ambiente.
Isso não significa, que colocar uma música calma seja suficiente para transformar automaticamente a alimentação de alguém. Os próprios experimentos avaliaram diferentes contextos e, em parte deles, mediram principalmente a intenção de consumo, e não necessariamente o comportamento alimentar em situações reais. Ainda assim, os resultados indicam que a música pode ser mais uma das pistas ambientais capazes de interferir, ainda que sutilmente, nas decisões tomadas diante de um cardápio.
Os resultados publicados na revista científica npj Science of Food, foram a partir da investigação de cientistas que analisaram a influência da música em quatro experimentos. O primeiro foi realizado em uma cafeteria universitária real em Macau, enquanto os outros três reproduziram situações de restaurantes em ambientes simulados.
A hipótese dos pesquisadores parte da chamada teoria da congruência: as pessoas tendem a considerar mais apropriadas as opções que combinam com o ambiente em que estão inseridas. Assim, uma atmosfera mais tranquila poderia fazer com que alimentos associados a uma alimentação saudável parecessem mais adequados à situação.
 
“A música de fundo é uma pista particularmente relevante: é extrínseca à própria comida, muitas vezes opera fora da consciência focal e pode ser facilmente manipulada em ambientes de restaurantes”, explicam os pesquisadores no estudo. Segundo eles, “até mesmo propriedades acústicas básicas podem moldar respostas relacionadas à alimentação”.     
 
Durante oito dias úteis, a cafeteria universitária alternou entre músicas consideradas de baixa e de alta excitação. As características das faixas haviam sido avaliadas previamente por outros participantes.
Ao longo do período, foram vendidos 911 itens alimentícios. Nos dias em que músicas relaxantes eram reproduzidas, 18,94% das compras correspondiam a alimentos classificados como saudáveis. Nos dias de música de alta excitação, essa proporção foi de 13,59%.
 
   O resultado está de acordo com pesquisas anteriores que também encontraram uma relação entre características da música e comportamento alimentar. Estudos já haviam indicado, por exemplo, que músicas tocadas em volume alto podem favorecer escolhas menos saudáveis, enquanto ambientes com som mais baixo foram associados ao aumento da venda de alimentos considerados saudáveis.
 
Uma possível explicação é que sons mais intensos aumentem o nível de excitação dos consumidores. Entretanto, uma música mais suave poderia criar uma atmosfera de relaxamento durante a refeição.
 
Nos experimentos seguintes, os pesquisadores buscaram verificar se o efeito observado na cafeteria poderia ser reproduzido em ambientes controlados. Em uma das experiências, os participantes analisaram um cardápio de almoço saudável enquanto ouviam músicas de hip-hop classificadas como de baixa ou alta excitação. O grupo exposto às músicas mais tranquilas apresentou uma intenção média de consumo de 6,08 pontos, contra 5,56 entre aqueles que ouviram músicas mais estimulantes.
 
Em outro experimento, os pesquisadores utilizaram jazz como música ambiente em um restaurante saudável simulado. Novamente, a versão de baixa excitação produziu uma intenção de consumo maior: 6,02 pontos, em comparação com 4,40 no grupo exposto ao jazz de alta excitação.
 
Na última simulação, as músicas foram combinadas com ruídos de fundo. A intenção média de consumo foi de 5,91 entre os participantes que ouviram música de baixa excitação, contra 5,59 entre os que escutaram música de alta excitação e 5,14 entre aqueles expostos apenas ao ruído.
 
Para os pesquisadores, os resultados indicam que a música pode funcionar como uma espécie de sinal ambiental. Sons mais calmos criariam uma atmosfera coerente com a ideia de uma refeição saudável, tornando essas opções mais apropriadas aos olhos dos consumidores.
 
A equipe também descreveu algumas características acústicas que podem contribuir para essa associação. Entre elas estão tons mais agudos, andamento mais lento, volume mais baixo, timbre sem distorção, articulação legato e harmonia consonante.
 
Em contraste, músicas consideradas de maior excitação apresentam características acústicas opostas. Os pesquisadores argumentam que essa combinação de elementos pode transmitir ao ouvinte uma determinada atmosfera, mesmo sem que ele esteja conscientemente prestando atenção à música.
 
“Quando a música é percebida como compatível com as características de uma culinária, os indivíduos são mais propensos a preferir, e, portanto, a escolher, as opções que parecem congruentes com esse ambiente”, escrevem os autores.
 
Outro fator observado nos experimentos foi a chamada compreensão percebida, a sensação de que os elementos apresentados em uma determinada situação fazem sentido e são coerentes entre si. Nos cenários de restaurante, os participantes expostos à música de baixa excitação relataram níveis mais altos dessa percepção. Para os pesquisadores, quando os sinais presentes no ambiente são mais facilmente interpretados, eles podem contribuir para atitudes e intenções de consumo mais fortes.
 
“Crucialmente, quando os sinais são facilmente interpretáveis, os indivíduos tendem a formar atitudes mais favoráveis ​​e intenções mais fortes”, explicam os pesquisadores.
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