Por que o excesso de açúcar pode estar tornando você deprimido (estudo/Galileu)

Por que o excesso de açúcar pode estar tornando você deprimido, segundo estudo –

Júlia Sardinha => Revista GALILEU
Para muitas pessoas, humor e fome andam lado-a-lado. Um delivery para comemorar as conquistas, a falta de apetite para as insatisfações e, não poderia faltar, um docinho para melhorar os momentos tristes. O problema, porém, é quando essa união entre açúcar e sentimentos reverbera em outras regiões do corpo, como o pâncreas, o fígado e até mesmo o cérebro.
Durante décadas, psiquiatras buscaram explicar a depressão a partir da deficiência dos neurotransmissores e de que os antidepressivos funcionariam, em partes, ao aumentar sua disponibilidade no cérebro. Mas essa explicação não dá conta de todos os casos. Por isso, os cientistas passaram a investigar outros mecanismos que podem estar envolvidos no transtorno, entre eles a maneira como o organismo controla o açúcar presente no sangue.
Pode parecer estranho relacionar o funcionamento do cérebro à quantidade de açúcar circulando pelo organismo, mas basta observar o gasto de energia deste órgão para entender o motivo pelo qual os pesquisadores estão interessados nessa conexão. Embora represente cerca de 2% do peso corporal, o cérebro consome aproximadamente 20% da energia utilizada pelo organismo. Energia essa que provém, em sua maioria, da glicose.
 
Para que essa energia chegue às células, o corpo conta com a insulina, hormônio produzido pelo pâncreas que regula a entrada da glicose em diferentes tecidos. Quando esse mecanismo não funciona, porém, o corpo precisa fazer um esforço maior para manter o controle da glicemia. Com o tempo, essa dificuldade pode favorecer o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
A alimentação também participa desse processo. Refeições ricas em carboidratos refinados e açúcares podem provocar elevações rápidas da glicemia, seguidas por uma redução dos níveis de glicose. A resposta varia conforme a composição da refeição, a quantidade consumida e as características de cada pessoa. Quando alterações no controle da glicose persistem, entretanto, elas podem estar relacionadas a problemas metabólicos que vão além do diabetes.
Acontece que, quando as alterações no controle da glicose persistem, outros problemas parecidos – e as questões de saúde mental – entram em jogo. Até porque, se o cérebro depende de um fornecimento contínuo de energia para funcionar, alterações no metabolismo podem estar relacionadas ao seu desempenho. Isso não significa que uma oscilação do açúcar no sangue provoque depressão, mas levanta dúvidas se há uma relação entre o controle glicêmico.
 
Estudos anteriores já indicavam que pessoas com diabetes apresentam quase o dobro da probabilidade de desenvolver depressão em comparação com aquelas que não têm a doença. A dúvida, por outro lado, é como essas duas condições se relacionam, já que não somente alterações metabólicas podem influenciar a saúde mental, mas também a própria depressão pode afetar hábitos alimentares, atividade física e outros fatores do metabolismo.
 
Então, em 2021, uma equipe de cientistas investigou essa relação. Eles acompanharam 601 adultos no decorrer de nove anos e, no final, os resultados indicaram que participantes com sinais de resistência à insulina tinham maior probabilidade de desenvolver o transtorno.
 
O que chamou a atenção é que os participantes não apresentavam depressão no início da pesquisa. Isso quer dizer que as alterações metabólicas identificadas estavam presentes antes do surgimento dos novos casos, reforçando a hipótese de que dificuldades no controle da glicose possam funcionar como um fator de risco para o transtorno.
A alimentação também apareceu como uma peça dessa relação. Em um estudo de 2015, que acompanhou quase 70 mil mulheres, aquelas que consumiam dietas com alto índice glicêmico apresentaram maior probabilidade de desenvolver depressão. Em contrapartida, o consumo de mais fibras, grãos integrais, frutas e vegetais esteve associado a uma menor probabilidade de desenvolver o quadro mental.
 
Mas isso não significa que comer açúcar deixa alguém mais feliz por alguns instantes e, depois, provoca uma queda no humor. Uma revisão de 31 estudos, feita em 2026, investigou os efeitos do consumo de açúcar sobre o estado emocional e não encontrou evidências de melhora do humor após a ingestão. Na verdade, cerca de uma hora depois, os participantes apresentavam maior cansaço e menor estado de alerta.
 
Os alimentos ultraprocessados também estão no centro dessa discussão. A verdade é que o problema não está em um ingrediente isolado, mas no conjunto de características desses produtos. Quando consumidos com frequência em substituição a alimentos in natura ou minimamente processados, eles podem contribuir para uma dieta de pior qualidade e estar associados a alterações metabólicas.
 
Os números chamam a atenção, mas precisam ser interpretados com cautela. Estudos observacionais conseguem identificar associações entre hábitos alimentares e condições de saúde, mas não demonstram, sozinhos, que um fator seja responsável pelo outro. Aspectos como renda, condições de vida, sono, atividade física e acesso à saúde também podem influenciar os resultados.
 
Além disso, a relação pode funcionar nos dois sentidos. Uma pessoa com depressão pode apresentar mudanças no apetite, na disposição para cozinhar e nas escolhas alimentares. Por isso, embora o consumo frequente de ultraprocessados esteja associado a uma maior probabilidade de depressão, ainda é necessário investigar quais mecanismos explicam essa relação e em que medida eles contribuem para o desenvolvimento do transtorno.
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