Hábito de leitura ajuda a preservar saúde mental –

Hábito de leitura ajuda a preservar saúde mental – Paloma Oliveto => Correio Braziliense
Seja um mangá ou um romance de Machado de Assis, ler por prazer favorece a saúde mental, com ganhos que vão do aumento da empatia ao risco reduzido da doença de Alzheimer. Novos estudos de neuroimagem demonstram que o hábito, quando voluntário, está associado a diferenças na estrutura do cérebro, como volume aumentado em regiões envolvidas em aprendizado, linguagem, regulação emocional e controle das funções executivas, aquelas que gerenciam pensamentos e ações para se atingir um objetivo.
Pesquisas também relacionam a leitura a uma conectividade mais forte da substância branca e aumento da espessura cortical em áreas-chave do cérebro onde ocorre o processamento da linguagem. Embora muitos desses estudos mostrem apenas associações, alguns já conseguem estabelecer evidências de causa e efeito, argumenta Barbara Sahakian, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Ela é um dos autores de um artigo publicado na revista Psychological Medicine no qual descreve os múltiplos benefícios do hábito para a saúde mental.
“A leitura é uma ótima maneira de cuidar da saúde do cérebro, desenvolver habilidades cognitivas importantes e melhorar o bem-estar”, enumera Barbara Sahakian. “É algo que devemos incentivar desde cedo, considerando as crescentes evidências de seus benefícios, principalmente para as crianças, mas, na verdade, nunca é tarde para começar, e os benefícios podem persistir ao longo de toda a vida, inclusive na velhice.”
A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim ressalta, porém, que ainda não é possível saber se quem começa a ler por prazer depois dos 40 anos sofre alterações cerebrais estruturais. “Mas ela acha essa possibilidade muito interessante. Não existe uma idade atrasada para começar a estimular o cérebro. Se a leitura desperta interesse e prazer, ela coloca atenção, memória, linguagem, imaginação e compreensão para trabalhar. E isso já é um ótimo motivo para abrir um livro, independentemente da idade.
 
Outro benefício para adultos leitores é uma possível proteção contra a neurodegeneração. Barbara Sahakian observa que há um conjunto de evidências observacionais que relacionam atividades de lazer cognitivamente estimulantes, como a leitura, a um declínio cognitivo mais lento e a um risco reduzido de demência em idosos. Uma dessas pesquisas, com dados de 1.939 pessoas, foi publicada neste ano na revista Neurology. Os autores descobriram que, entre aquelas que passaram a vida lendo por prazer, o risco de desenvolver a doença de Alzheimer foi 36% menor. Os autores ressaltam, porém, que não se trata de uma relação causal.
 
Os benefícios da leitura prazerosa vão além da consolidação da memória ou do aperfeiçoamento linguístico. No artigo de revisão publicado na revista Psychological Medicine, os autores destacam os ganhos socioemocionais, como redução do estresse, maior relaxamento, mais empatia e compreensão pelos outros e uma atitude mais tolerante em relação a diferentes perspectivas. 
Um dos estudos com relação causal descritos no artigo foi conduzido por Anthony J. Krafnick, da Universidade de Georgetown, em Washington, nos Estados Unidos, e incluiu 11 crianças com dislexia na faixa etária de 7 a 11 anos. Segundo a pesquisa, um treinamento de oito semanas com foco em imagens mentais, traçado de letras e articulação de palavras melhorou significativamente as habilidades de leitura, sendo que alguns dos benefícios foram mantidos em uma avaliação realizada dois meses após o fim do programa. Os ganhos cognitivos foram acompanhados por aumento no volume de substância cinzenta — o “processador” de pensamento, controle muscular e percepção dos sentidos — em cinco regiões cerebrais, o que foi calculado por um exame chamado morfometria baseada em voxel (MBV)
 
“A leitura é uma experiência cognitiva muito completa. Quando uma criança lê ou escuta uma história, ela precisa sustentar a atenção, acompanhar a sequência dos acontecimentos, lembrar personagens, antecipar hipóteses e organizar informações para compreender o sentido do texto”, observa Raquel Nazário, diretora e gestora educacional da escola Maple Bear Brasília. “Esse processo mobiliza memória, linguagem, imaginação e funções executivas, como planejamento, flexibilidade de pensamento e controle inibitório.” Segundo a pedagoga, quanto mais prazerosa e frequente a prática na infância e na adolescência, maiores os ganhos em concentração, interpretação, conexões e execução de tarefas complexas. 
 
A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim, de Brasília, observa que começar cedo a gostar de ler pode ter impactos cognitivos duradouros. “Um estudo com mais de 10 mil adolescentes constatou que aqueles que começaram a ler por prazer na infância apresentaram, mais tarde, melhor atenção, memória de trabalho, memória episódica e controle inibitório”, relata Juliana. “Também tiveram melhor desempenho acadêmico e menos problemas relacionados à saúde mental, além de diferenças em áreas do cérebro ligadas à linguagem e à cognição.”
 
Juliana Gebrim afirma que mesmo quem começou a ler mais tarde pode se beneficiar. “O cérebro continua plástico. Temos estudos mostrando mudanças no cérebro de adultos que passaram por processos de alfabetização, acompanhadas de melhora na leitura e na escrita”, diz. Em 2013, um artigo da Universidade do Sul da Califórnia, publicado na revista Scientific Studies of Reading, por exemplo, demonstrou que, em pessoas de 18 a 25 anos, uma exposição maior à leitura aumentou a espessura cortical em regiões importantes do processamento da linguagem. 
 
“Quando a pessoa se envolve com uma leitura agradável, sua atenção se afasta, por algum tempo, das preocupações, e isso ajuda a diminuir pensamentos repetitivos e produz uma sensação de pausa e relaxamento”, esclarece a psicóloga clínica Maria Keity Fernandez Cavalcante, de Brasília. “A leitura também desperta emoções positivas, estimula a imaginação e pode ajudar a pessoa a encontrar novos sentidos para aquilo que está vivendo. Além disso, o vínculo criado com personagens e histórias pode gerar uma sensação de companhia, reduzindo a percepção de solidão.”
 
Um estudo publicado na revista Plos One por pesquisadores da Universidade Livre de Amsterdã, nos Países Baixos, sustenta, inclusive, que a leitura de ficção estimula a empatia. “Frequentemente, quando alguém lê uma história de ficção, a identificação com os personagens e o envolvimento emocional com a história fazem com que o leitor simpatize com eles e talvez até vivencie os eventos da história como se os estivesse vivenciando pessoalmente”, escreveram os autores. 
 
A pedagoga e gestora educacional Raquel Nazário, da Maple Bear Brasília, destaca a importância de a criança entrar em contato com diferentes realidades, emoções, conflitos e formas de ver o mundo. “Ao acompanhar personagens, ela aprende a reconhecer sentimentos, compreender motivações, perceber consequências de escolhas e desenvolver empatia. Do ponto de vista socioemocional, isso é muito poderoso. A leitura amplia a capacidade de escuta e de compreensão do outro”, diz a pedagoga. 
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