Países com mais gatos tendem a ser mais felizes, diz estudo –
Felipe Espinosa Wang => Deutsche Welle Brasil
Amantes dos felinos não têm dúvidas de que seus
gatos os tornam mais felizes.
Um novo estudo, baseado na comparação de dados de 93 países, avaliou se esse efeito se estende mais amplamente pela sociedade. A conclusão: países com mais gatos exibiam níveis mais elevados de felicidade.
Mas, como quase sempre acontece na ciência, há ressalvas a considerar. Além da prevalência de gatos, os pesquisadores também incluíram no cálculo fatores econômicos e de saúde, geralmente analisados em pesquisas sobre bem-estar. E constataram que a relação de felicidade se invertia conforme cresciam os índices de exposição ao parasita
Toxoplasma gondii, causador da
toxoplasmose, doença bastante conhecida por quem convive com os bichanos.
A equipe liderada por Javier I. Borráz-León, do
Instituto Nacional de Psiquiatria Ramón de la Fuente Muñiz, no México, utilizou dados públicos sobre índices de felicidade, PIB per capita, renda, gastos com saúde, densidade de gatos e níveis de exposição ao
Toxoplasma gondii. Este último indicador se baseou na
soroprevalência em mulheres grávidas, adotada como referência para a população em geral.
Os dados sugerem uma relação entre densidade de gatos, exposição ao parasita e
níveis de felicidade, mas não provam que uma dessas variáveis cause a outra. Em outras palavras, trata-se de um estudo correlacional. “São associações observadas a nível nacional”, ressaltam os autores do estudo, que consideram os resultados interessantes suficiente para justificar novas pesquisas.
*
Isso também não significa que uma pessoa ficará mais feliz simplesmente por adotar um gato. O estudo analisa tendências entre países, não os efeitos diretos sobre indivíduos. Em vez de oferecer uma fórmula para a felicidade, o estudo amplia a forma como o bem-estar pode ser analisado.
Os autores sugerem que, além de analisar fatores clássicos, como os socioeconômicos, também pode ser útil levar em consideração fatores biológicos e ecológicos para entender por que algumas populações declaram níveis mais altos de bem-estar do que outras.
Javier Borráz-León, que se declara amante de gatos e viveu por 13 anos com sua companheira felina Homerita, afirmou ao The Washington Post que os resultados não devem alimentar o medo dos gatos. Pelo contrário: o estudo reforça a importância da responsabilidade na criação desses animais.
Afinal, a decisão de adotar um gato envolve muitos fatores, e boa parte deles é pessoal. Os resultados do estudo, por si só, não são suficientes para concluir que viver com um gato tornará alguém mais feliz.
* O aspecto mais curioso é que os níveis de exposição ao Toxoplasma gondii não aumentavam conforme o tamanho da população de felinos, embora os gatos sejam seus principais hospedeiros. Na verdade, a associação observada foi justamente o contrário.
O site especializado Science Alert destaca essa aparente contradição e menciona a explicação sugerida pelos pesquisadores: fatores como cuidados com os animais, higiene e condições socioeconômicas podem ajudar a entender o fenômeno.
É aí que o contexto econômico pode ser uma peça importante do quebra-cabeça. Mais acompanhamento veterinário e melhores condições de vida reduzem o contato dos gatos com o ambiente externo e, desta forma, diminuem o risco de exposição ao parasita. Ao mesmo tempo, esses países tendem a apresentar melhores indicadores de saúde e qualidade de vida, o que torna mais difícil separar um possível “efeito dos gatos” do impacto das condições econômicas sobre a felicidade.
Os dados também apresentam particularidades. Certos países podem ter exercido um peso desproporcional nos resultados, e a China é um exemplo disso.
Segundo um comunicado da PLOS One, que publicou o estudo, o país registrou índice de felicidade de 5,97 pontos, acima da média de 5,72, mesmo contando com apenas 376 gatos para cada 10 mil habitantes, bem abaixo da média de 989.
A Finlândia oferece um cenário diferente. O país foi o mais feliz da amostra e apresentava uma quantidade de gatos por habitante superior à média, de acordo com o The Washington Post.
Por isso, é importante não tirar conclusões precipitadas.