Confúcio pode salvar universidades ocidentais de sua crise de identidade =Publicação: ECNU Review of Education => DIÁRIO DA SAÚDE
Há uma crise de identidade permeando as universidades de todo o mundo. Os sistemas de ensino superior baseiam-se predominantemente no modelo anglo-americano de universidade de pesquisa, mas esse modelo tem sido cada vez mais criticado por sua dependência excessiva de valores neoliberais, reduzindo a educação a resultados econômicos, enquadrando os estudantes como consumidores e priorizando rankings institucionais em detrimento do desenvolvimento humano.
Ao mesmo tempo, os rápidos avanços na inteligência artificial (IA) e a massificação sem precedentes do ensino superior estão remodelando as próprias condições de funcionamento das universidades – desde 1990, a proporção global de jovens que frequentam o ensino superior aumentou de 14% para 40%.
Diante dessa crise de identidade, pesquisadores estão propondo um novo olhar sobre a universidade a partir da filosofia de Confúcio, sábio chinês que viveu entre 551 e 479 a.C. e cuja doutrina, conhecida como confucionismo, propõe a harmonia social e o cultivo da virtude como caminho para formar pessoas nobres e virtuosas através da educação.
Catherine Gao e Rui Yang, da Universidade Hong Kong, resgataram os ideais confucionistas de junzi, o indivíduo ideal, e tianxia, a ordem social bem estruturada, para mostrar como o ensino superior pode servir de ponte entre a formação pessoal e o bem coletivo.
A obra mais importante dos ensinamentos de Confúcio, chamada Os Analectos, destaca quatro características da visão educacional do filósofo que a distinguem dos modelos ocidentais dominantes.
Primeiro, a edução para Confúcio é relacional: Em vez de privilegiar o indivíduo autônomo, o filósofo coloca os relacionamentos como origem e meta da educação. Segundo, ela é contextualizada e praticável: Os ensinamentos são situados, adaptáveis e orientados à ação, unindo conhecimento e prática. Terceiro, a educação é movida por um chamado interior: A autorregulação parte da motivação interna do indivíduo, não da imposição externa de regras. E, por fim, a educação é unificada e coerente: O cultivo de si mesmo e a construção da ordem social são tecidos numa única busca indissociável.
Os dois pesquisadores reconhecem as limitações históricas de Confúcio – em sua época, o acesso à educação era restrito à nobreza, e seu currículo dava menos ênfase a conhecimentos práticos como a agricultura, mas eles argumentam que essas limitações não diminuem a relevância contemporânea do arcabouço. Além disso, o modelo de universidade ocidental também foi fundamentado em uma época em que a educação era apenas para os nobres.
Com a massificação do ensino superior permitindo que mais pessoas do que nunca possam vislumbrar e trabalhar por ideais que transcendem interesses pessoais, e com a IA exigindo não apenas habilidades técnicas, mas um renovado senso de responsabilidade relacional e propósito ético, os pesquisadores concluem: É hora de ir além da visão estreita e competitiva do ensino superior neoliberal e reimaginar o que significa educar pessoas para um mundo fragmentado, porém profundamente interconectado.
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